'A Paixão de Cristo', polêmica artificial
CARLOS ALBERTO DI FRANCO
Ao noticiar as impressões despertadas pelo filme de Mel Gibson, a mídia está
mostrando, certamente sem perceber, o tamanho do fosso que a está separando
da grande massa dos leitores, ouvintes e telespectadores. O sucesso,
arrasador, de bilheteria é, sem dúvida, uma evidência de que alguém está na
contramão da opinião pública. Antes da estréia do filme no Brasil,
antecipada para o próximo dia 19, o público está sendo "informado" por uma
enxurrada de clichês que tem como denominador comum o prejulgamento: o filme
é "anti-semita", é de uma "violência irresponsável", etc. Alguns,
curiosamente, clamam até pela volta da censura.
Ao contrário de certo advogado que se vangloria de ter visto o filme em DVD
pirata (contravenção penal) e, agora, defende sua proibição para menores de
18 anos e, se possível, seu banimento do território nacional (curioso
conceito de liberdade de expressão), assisti ao filme na cópia original,
graças ao convite da Fox Film do Brasil. Por isso, só agora entro nesta
polêmica artificial.
Visto o filme, creio, como bem lembrou o jornalista italiano Vittorio
Messori, que têm razão os judeus americanos que aconselharam seus
correligionários a não condenar o filme antes de vê-lo. Fica claríssimo que
o que pesa sobre Cristo e o reduz àquele estado espantoso não é a culpa
deste ou daquele, mas o pecado de todos os homens, sem excluir nenhum. O meu
pecado e o seu, caro leitor. Afinal, como salienta Messori, à obstinação de
Caifás em pedir a crucifixão (o próprio Talmude tem para ele e seu sogro
palavras terríveis), faz forte contrapeso o sadismo dos verdugos romanos; às
vilezas de Pilatos se opõe a coragem do membro do Sinédrio - episódio
acrescido pelo diretor - que se enfrenta com o sumo sacerdote gritando-lhe
que aquele processo é ilegal. E não é judeu o apóstolo João que acompanha
Maria, interpretada brilhantemente por Maia Morgenstern? Não é judia a
Verônica? Não é judeu o impetuoso Simão Cirineu? Não é judeu Pedro, que,
perdoado, morrerá pelo Mestre? As palavras do profeta Isaías abrem
sugestivamente o filme: "Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades,
e carregou os nossos sofrimentos" (...) "Mas ele foi castigado por nossos
crimes, e esmagado por nossas iniqüidades." As baterias não estão apontadas
para o povo judeu, mas para toda a humanidade. E o perdão, também.
O filme é violento? Não. O filme é brutal. Como brutal foi a Paixão de
Cristo. Gibson, com uma fidelidade escrupulosa aos Evangelhos, narra um fato
histórico terrivelmente dramático e sangrento. Não se trata de uma releitura
adocicada do Novo Testamento. A pretensão do diretor, apoiado na verdade
histórica e num espantoso domínio da técnica cinematográfica, é causar
impacto no espectador para que tome consciência dos sofrimentos de Cristo e
da magnitude do seu sacrifício pela Redenção de toda a humanidade. A Paixão
de Cristo mostra uma dor e um sacrifício que comprometem. Por isso,
escandalizam. E este é, caro leitor, o cerne da polêmica: a Paixão de
Gibson, fiel ao Evangelho, deixa claro que Jesus Cristo é o filho de Deus.
Só quem tem fé, e mesmo quem não a tem, mas não está dominado pelo
sectarismo e pelo preconceito, pode assistir ao filme com um mínimo de
serenidade intelectual. O preconceito, e incluo aqui o repugnante
anti-semitismo, é sempre uma manifestação de inferioridade. Estudei num
colégio (o Rio Branco) com forte presença judaica. Fiz muitos amigos judeus.
Amigos para toda a vida. Por isso, escrevo com muita tranqüilidade. Penso
que as distorções estão mais nos olhos e na mente de alguns críticos do que
no filme.
Fizeram-se dezenas de filmes sobre a Paixão. Este é, penso, um filme
excepcional, feito por quem entende do ofício. Também assistimos a inúmeros
filmes sobre o desembarque na Normandia, mas foi em O Resgate do Soldado
Ryan que vimos, de fato, o que aconteceu em Omaha. Salvando as distâncias
infinitas entre os dois temas, podemos dizer o mesmo: a história não mudou,
foi mais bem contada. Convido-o, caro leitor, a formar sua própria opinião.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e
professor de Ética Jornalística, é diretor para o Brasil de Mediacción-Consultores
em Direção Estratégica de Mídia (Universidade de Navarra) E-mail: difranco@ceu.org.br
[Extraído do Jornal "O Estado de São Paulo" de 15/03/2004]
CARLOS ALBERTO DI FRANCO
Ao noticiar as impressões despertadas pelo filme de Mel Gibson, a mídia está
mostrando, certamente sem perceber, o tamanho do fosso que a está separando
da grande massa dos leitores, ouvintes e telespectadores. O sucesso,
arrasador, de bilheteria é, sem dúvida, uma evidência de que alguém está na
contramão da opinião pública. Antes da estréia do filme no Brasil,
antecipada para o próximo dia 19, o público está sendo "informado" por uma
enxurrada de clichês que tem como denominador comum o prejulgamento: o filme
é "anti-semita", é de uma "violência irresponsável", etc. Alguns,
curiosamente, clamam até pela volta da censura.
Ao contrário de certo advogado que se vangloria de ter visto o filme em DVD
pirata (contravenção penal) e, agora, defende sua proibição para menores de
18 anos e, se possível, seu banimento do território nacional (curioso
conceito de liberdade de expressão), assisti ao filme na cópia original,
graças ao convite da Fox Film do Brasil. Por isso, só agora entro nesta
polêmica artificial.
Visto o filme, creio, como bem lembrou o jornalista italiano Vittorio
Messori, que têm razão os judeus americanos que aconselharam seus
correligionários a não condenar o filme antes de vê-lo. Fica claríssimo que
o que pesa sobre Cristo e o reduz àquele estado espantoso não é a culpa
deste ou daquele, mas o pecado de todos os homens, sem excluir nenhum. O meu
pecado e o seu, caro leitor. Afinal, como salienta Messori, à obstinação de
Caifás em pedir a crucifixão (o próprio Talmude tem para ele e seu sogro
palavras terríveis), faz forte contrapeso o sadismo dos verdugos romanos; às
vilezas de Pilatos se opõe a coragem do membro do Sinédrio - episódio
acrescido pelo diretor - que se enfrenta com o sumo sacerdote gritando-lhe
que aquele processo é ilegal. E não é judeu o apóstolo João que acompanha
Maria, interpretada brilhantemente por Maia Morgenstern? Não é judia a
Verônica? Não é judeu o impetuoso Simão Cirineu? Não é judeu Pedro, que,
perdoado, morrerá pelo Mestre? As palavras do profeta Isaías abrem
sugestivamente o filme: "Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades,
e carregou os nossos sofrimentos" (...) "Mas ele foi castigado por nossos
crimes, e esmagado por nossas iniqüidades." As baterias não estão apontadas
para o povo judeu, mas para toda a humanidade. E o perdão, também.
O filme é violento? Não. O filme é brutal. Como brutal foi a Paixão de
Cristo. Gibson, com uma fidelidade escrupulosa aos Evangelhos, narra um fato
histórico terrivelmente dramático e sangrento. Não se trata de uma releitura
adocicada do Novo Testamento. A pretensão do diretor, apoiado na verdade
histórica e num espantoso domínio da técnica cinematográfica, é causar
impacto no espectador para que tome consciência dos sofrimentos de Cristo e
da magnitude do seu sacrifício pela Redenção de toda a humanidade. A Paixão
de Cristo mostra uma dor e um sacrifício que comprometem. Por isso,
escandalizam. E este é, caro leitor, o cerne da polêmica: a Paixão de
Gibson, fiel ao Evangelho, deixa claro que Jesus Cristo é o filho de Deus.
Só quem tem fé, e mesmo quem não a tem, mas não está dominado pelo
sectarismo e pelo preconceito, pode assistir ao filme com um mínimo de
serenidade intelectual. O preconceito, e incluo aqui o repugnante
anti-semitismo, é sempre uma manifestação de inferioridade. Estudei num
colégio (o Rio Branco) com forte presença judaica. Fiz muitos amigos judeus.
Amigos para toda a vida. Por isso, escrevo com muita tranqüilidade. Penso
que as distorções estão mais nos olhos e na mente de alguns críticos do que
no filme.
Fizeram-se dezenas de filmes sobre a Paixão. Este é, penso, um filme
excepcional, feito por quem entende do ofício. Também assistimos a inúmeros
filmes sobre o desembarque na Normandia, mas foi em O Resgate do Soldado
Ryan que vimos, de fato, o que aconteceu em Omaha. Salvando as distâncias
infinitas entre os dois temas, podemos dizer o mesmo: a história não mudou,
foi mais bem contada. Convido-o, caro leitor, a formar sua própria opinião.
Carlos Alberto Di Franco, diretor do Master em Jornalismo para Editores e
professor de Ética Jornalística, é diretor para o Brasil de Mediacción-Consultores
em Direção Estratégica de Mídia (Universidade de Navarra) E-mail: difranco@ceu.org.br
[Extraído do Jornal "O Estado de São Paulo" de 15/03/2004]
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